Tingido de escarlate, aquilo não era só um ensopado. Era a água que saciaria a sede de uma terra seca, era o cedro do Líbano para o exímio lenhador, era o que o perito caçador necessitava para aquele instante. Dane-se a primogenitura, ela não vai matar a minha fome.
O carmesim daquela refeição me fez saltar os olhos. O aroma intenso me entorpecia suavemente à medida em que aquele líquido dançava em minha boca, descendendo até as porções inferiores, até o âmago da minha fome, fazendo-a calar. Sim, deleitando-me no sabor daquelas lentilhas, como carne de ovelha para um lobo voraz, tive a certeza de que a gula é um dos melhores pecados. O prazer vermelho de alguns minutos de satisfação é, sem dúvida, insubstituível, até que o momento em que, passada a fugacidade da conclusão de um estrênuo desejo, você queira vomitar arrependimentos.
Lembrei-me de papai. Das bençãos. Da alegria que eu lhe trazia quando, mesmo enfadado das minhas labutas, chegava em casa com uma daquelas melhores carnes. Pesava-me, agora, o fardo da culpa. Sobre os meus ombros, era bem mais do que eu podia suportar. Tolo! É vaidade confiar na efemeridade das coisas. Insensato! Se possível, eu lhe havia desonrado até às cãs! A avidez do meu apetite transformou-se em uma sensação amarga e cruel, entalada em minha garganta e sufocante como uma daquelas mortes muito bem conhecidas por mim, quando estrangulo a jugular de um chacal.
O perito caçador suspira. E, com os olhos cheios de lágrimas, constata que é tarde demais.
Luísa Guimarães Couto